Dois livros sobre como decidir melhor.
Um sobre o raciocínio de quem decide, outro sobre o que fazer quando a decisão depende também do outro lado. Abaixo, o índice completo de cada um, capítulo por capítulo, com o resumo do que há dentro. Os artigos e ensaios estão no acervo.
Reasoning Skills
Raciocínio estruturado para decisões de impacto.
O livro Reasoning Skills é um convite para quem quer pensar melhor. Hard skills impressionam. Soft skills conectam. Mas são as reasoning skills que diferenciam. Em um mercado saturado de estímulos e decisões cada vez mais complexas, pensar com clareza virou a nova vantagem competitiva. Este livro provoca, desafia e ensina o que ninguém ensinou: como raciocinar com método, lucidez e precisão.
Com linguagem direta, exemplos afiados e ferramentas aplicáveis, Reasoning Skills apresenta o raciocínio estruturado como a terceira habilidade essencial do líder do futuro, ao lado da técnica e da empatia. Ideal para quem lidera, decide ou quer parar de pensar no automático. Porque no fim, não é sobre o que você pensa. É sobre como você pensa, e o impacto que isso tem em tudo.
Veja o sumário e o resumo de cada capítulo
Int.Pensar bem é uma escolha
Diante da evidência de que somos cognitivamente limitados e erramos de forma previsível, há três caminhos possíveis: explorar essa irracionalidade alheia, como fazem marqueteiros e políticos, resignar-se a ela e usá-la como desculpa para não pensar, ou enfrentá-la de frente. Os dois primeiros erram do mesmo jeito, ao tratar a irracionalidade como destino inevitável, quando na verdade pensar bem não é talento nem acidente, mas uma decisão consciente que só se sustenta com treino deliberado, o que torna o livro um manual de combate, e não um inventário de erros a serem apenas reconhecidos.
1Por que as reasoning skills são a chave para o futuro
Hard skills dão o conhecimento técnico mas não dizem quando nem como aplicá-lo, e soft skills criam ambiente e engajamento mas não suprem a clareza analítica na hora de decidir, de modo que o erro das empresas não está em investir nas duas, e sim em supor que elas bastam sozinhas. Falta um terceiro pilar, as reasoning skills, formadas pela resolução de problemas, pela tomada de decisão e pelo raciocínio crítico, cada uma com seu arquétipo próprio: o Engenheiro, que decompõe e caça a causa-raiz, o Economista, que lê incentivos e trade-offs, e o Filósofo, que examina premissas e coerência, sendo que o diferencial não está em dominar um deles isoladamente, mas em integrar os três numa mesma mentalidade. É dessa integração que nasce também a distinção que dá nome ao livro: pensar é automático e associativo, enquanto raciocinar é deliberado, metódico e orientado a um propósito.
2Como não ser manipulado: os vieses que marqueteiros exploram
Os mesmos atalhos mentais que permitem agir rápido funcionam também como portas de entrada previsíveis para a manipulação, e o problema não está na heurística em si, mas no seu uso automático, fora de contexto e sem filtro crítico. São vinte armadilhas organizadas em três grupos, os julgamentos automáticos, como familiaridade, disponibilidade, efeito halo, prova social e viés de confirmação, os impulsos emocionais, como escassez, framing, aversão à perda, ancoragem e efeito isca, e as falácias lógicas, como ad hominem, ladeira escorregadia, falso dilema e causa falsa, cada uma com sua defesa correspondente: inverter o enquadramento, já que 90% de aprovação é também 10% de rejeição; perguntar se, começando do zero hoje, a mesma escolha ainda faria sentido, contra o custo irrecuperável; ou fixar a própria âncora de preço antes de ouvir a do vendedor. O nudge é o caso mais ambivalente dessas influências, e a única defesa contra ele é desacelerar e observar conscientemente o que foi pré-selecionado, destacado ou escondido.
3O julgamento no escuro: por que você escolhe mal mesmo quando parece racional
Sem atributos explícitos de comparação não existe julgamento, apenas reação, e é por isso que o oposto de racionalidade não é a emoção, mas a ausência de critério: decide-se mal mesmo estando calmo e lúcido. Decidir é escolher, escolher é selecionar uma opção entre várias, e selecionar é comparar, num processo de cinco etapas, objetivo, alternativas, atributos, avaliação e decisão, em que o gargalo costuma estar justamente nos atributos, porque os critérios cumprem três funções diferentes, eliminar, classificar e desempatar, e é essa distinção que confere racionalidade à flexibilidade. A subjetividade não se elimina, se estrutura: uma expressão como "boa liderança" precisa virar subatributos observáveis, porque, sem isso, cada avaliador projeta a própria definição e a decisão colegiada acaba virando um mosaico de critérios inconciliáveis.
4Pensar não é um caos: como domar problemas com clareza
O bom raciocínio começa por hipóteses, e não por dados: formulam-se as respostas plausíveis antes de coletar informação, para então analisar os fatos com o objetivo de provar ou refutar cada uma, em vez de reunir dados soltos e só depois procurar a que pergunta eles respondem. Essa estrutura vem do MECE, mutuamente exclusivo e coletivamente exaustivo, o Princípio da Pirâmide de Barbara Minto, que se aplica perguntando, a cada ideia nova, se ela é uma questão separada e distinta, e verificando ao final se não falta nenhuma. A árvore lógica converte essa lista num mapa hierárquico, e a regra de ouro é terminá-la por inteiro antes de analisar prós e contras de qualquer ramo, porque analisar cedo demais faz com que se crie apego a um único cenário; bastam três a cinco fatores principais, e a ideia-resumo amarra tudo, de modo que, em vez de anunciar que há três tópicos a tratar, enuncia-se logo a mensagem única, e só depois os passos que a sustentam.
5Premissas ocultas: a origem silenciosa dos argumentos falhos
O que trava boa parte das discussões não é falta de dados nem excesso de emoção, mas a premissa não declarada: a conclusão só se sustenta se aquilo que ficou implícito for verdadeiro, e como isso nunca foi dito, ninguém consegue testá-lo. Todo argumento tem três peças, premissa, inferência e conclusão, e existem quatro modos de inferir, cada um com sua fraqueza própria: a dedução, a indução, que um único caso contrário já derruba, a abdução e a analogia, que nunca prova nada, apenas sugere. Validade e veracidade são testes independentes um do outro, de modo que uma forma correta com premissa falsa é tão defeituosa quanto premissas verdadeiras costuradas por um salto lógico, e o procedimento contra a premissa oculta é sempre o mesmo: nomear a premissa explícita, escrever qual é a implícita mais provável e devolver a pergunta a quem argumenta. Quanto mais vaga a palavra usada, "maturidade", "proativo", "urgente", mais fácil fica esconder ali uma premissa frágil, e mais difícil contestá-la.
6Atalhos que funcionam: como simplificar a decisão sem perder o rigor
Heurística não é só fonte de viés: escolhida de forma deliberada e ajustada ao ambiente, uma regra de poucos critérios pode decidir melhor do que um modelo sofisticado, e é essa a racionalidade ecológica de Gerd Gigerenzer, em que a qualidade da decisão vem do encaixe entre a regra e o contexto, de modo que menos é mais justamente porque a heurística ignora o ruído. O repertório tem nomes próprios, como o take-the-best, em que o primeiro critério que discrimina de verdade já decide, o satisficing, que aceita a primeira alternativa que atinja o mínimo exigido, além do reconhecimento, da fluência e do tallying, sustentados por casos reais, da árvore de três variáveis que classifica dor no peito melhor do que modelos de dezenove, à Cisco comprando só empresas de até 75 funcionários, à Lego, que resume tudo à pergunta "isso ainda é Lego?". Dentro das organizações, as regras simples de Eisenhardt e Sull se dividem em execução, fronteira, prioridade, timing e saída, e a lacuna de uma empresa se diagnostica justamente pelo tipo que falta, já que quem não tem regra de saída acaba acumulando projetos zumbis; saber a hora certa de parar de analisar também faz parte do rigor.
7O xadrez invisível: como pensar à frente usando a Teoria dos Jogos
Em decisão estratégica o resultado não depende só de você, mas da combinação das escolhas dos dois lados, e por isso a única forma de decidir bem é se colocar no lugar do outro antes de agir. Segundo Michael Allingham há três tipos de escolha, com certeza, com incerteza probabilística e com incerteza estratégica, sendo que só a última é objeto da Teoria dos Jogos, cujo método central é a indução retroativa: determinar em cada nó o que o adversário escolheria para maximizar o próprio ganho, podar o jogo até esses ramos e só então escolher a jogada de maior retorno dentro do que sobrou. Mirar o maior número da tabela quando o adversário nunca vai deixar você chegar até lá é erro de raciocínio precipitado, porque o ótimo real é o melhor resultado factível dentro dos incentivos existentes, e mudar esses incentivos é, na prática, mudar de jogo. É esse raciocínio que explica por que, no Dilema dos Prisioneiros, trair é a estratégia dominante e trair-trair vira o Equilíbrio de Nash, ineficiente para os dois lados, com apenas duas saídas conhecidas: uma autoridade que puna a traição, ou a repetição do jogo sem fim conhecido.
FimCriando uma cultura do bom raciocínio
Pensar bem é uma escolha individual, mas só se sustenta de verdade quando vira cultura compartilhada, com modelos mentais espalhados, lógica bem construída valorizada e um vocabulário comum de clareza e rigor, dentro de empresas, escolas e famílias. Isso não se decreta, se propaga por convivência, porque quem raciocina melhor muda as próprias conversas e acaba contaminando, no bom sentido, quem está por perto. E contra quem argumenta que a racionalidade é superestimada, a resposta cabe numa única pergunta, você tem razões para isso?, já que formular essa objeção já é, em si, tirar uma conclusão a partir de premissas, ou seja, é estar dentro do próprio jogo que se pretende criticar. É essa a provocação de Steven Pinker em Racionalidade, que fecha o livro.
Estratégias de Decisão
Decida melhor com insights da Teoria dos Jogos.
Estratégias de Decisão é um livro que provoca o leitor para um novo pensar sobre as decisões estratégicas do seu dia a dia. Depois de conhecer alguns modelos de decisão, você verá suas interações de forma diferente. Você tem consciência de como raciocina quando precisa antecipar as reações dos outros? Você tem alguma estratégia para isso?
Se você tiver uma atitude aberta para novos conhecimentos e técnicas, você poderá elevar a sua performance e tomar decisões difíceis com mais segurança. Por meio de uma série de analogias, jogos e histórias, este livro demonstra que a potência da Teoria dos Jogos pode ajudá-lo a decidir melhor e errar menos quando tiver de escolher qual caminho seguir em momentos importantes de competição e cooperação.
Veja o sumário e o resumo de cada capítulo
Int.Introdução
Uma decisão comum depende só de você, mas uma decisão estratégica depende da combinação da sua escolha com a do outro, e é exatamente aí que a maioria erra, por não antecipar a reação alheia. Dizer que é preciso ter método não resolve nada, do mesmo jeito que emagrecer não se resolve com o conselho de "coma direito e faça exercício": o que falta, de fato, é sistematizar o raciocínio intuitivo que já se usa sem perceber. Competir e cooperar têm finalidades opostas, mas compartilham a mesma estrutura, porque em ambos os casos existe um outro decidindo do lado de lá, e é por isso que os modelos vêm de três fontes, a Teoria dos Jogos, a Economia Clássica e a Economia Comportamental, entrando na caixa de ferramentas mental como atalhos memorizáveis, sem exigir formalismo matemático.
Apr.Decisões estratégicas e Teoria dos Jogos
Segundo Michael Allingham existem três tipos de escolha: com certeza, quando tudo depende só das próprias preferências; com incerteza probabilística, quando há um risco a calcular; e com incerteza estratégica, quando o resultado depende da decisão de outra pessoa, sendo que só essa terceira é objeto da Teoria dos Jogos, cujo ciclo de raciocínio não tem fim, porque você pensa no que ele pensa que você pensa. O maior legado da disciplina não é a matemática, mas um modelo mental simples: antes de decidir, colocar-se no lugar do outro e imaginar a reação dele, sabendo que ele faz exatamente o mesmo em relação a você. Um modelo está para a realidade assim como um mapa está para a região, uma simplificação proposital que só se torna inadequada quando distorce a situação ou omite algo crucial, e é essa simplificação que está por trás da pergunta de Garrincha a Feola, na Copa de 1958, sobre se já tinham combinado com os russos, a melhor síntese possível da ideia.
Parte 1 · A lógica da competição
1Pense à frente e raciocine para trás
A regra número um da estratégia tem dois passos: primeiro, colocar-se no lugar do adversário para determinar o que ele escolheria em cada ramo da decisão; depois, já com o jogo reduzido a esses ramos, escolher a jogada de maior ganho possível. A árvore de decisão explicita quem joga primeiro, quais são as opções de cada lado e o resultado de cada combinação, sob dois pressupostos declarados, o conhecimento comum e a racionalidade dos dois jogadores, e quase nunca se alcança o maior número da árvore inteira: o que se obtém, de fato, é o máximo possível dado o que o outro vai fazer, o que significa que o adversário pode até ganhar mais do que você sem que a sua escolha esteja errada, já que escolher pior só para que ele ganhe menos custaria ganho seu também. É aqui que aparece o first-mover advantage, em que quem se compromete primeiro induz o segundo a se acomodar, e é também aqui que mora o erro estratégico de Indiana Jones na cena final da última cruzada.
2Conheça os verdadeiros incentivos do outro
Mapear as próprias opções não basta: se você errar o que o outro está de fato tentando maximizar, estará jogando um jogo diferente do dele, e a sua previsão vai falhar por inteiro. Impasses de negociação costumam nascer de ignorância sobre o esquema real de incentivos, e não de má vontade, como no acordo de exclusividade que travou por causa de uma lealdade familiar que ninguém tinha mapeado, e nem todo incentivo é financeiro: existem os morais, que vêm do desejo de não fazer o errado, e os sociais, que vêm do desejo de não ser visto fazendo o errado, sendo que substituir um deles por um preço baixo pode destruir o efeito inteiro, como fez a multa de três dólares que dobrou os atrasos nas creches de Haifa. É por isso que a regra de ouro de não fazer aos outros o que não se gostaria que fizessem a você não vale em estratégia, já que os gostos são diferentes, e o que realmente conta é o que o outro sabe, o que o motiva e o que ele pensa sobre você.
3Racionalizando a irracionalidade
Racional, em Teoria dos Jogos, não é o oposto de emocional, mas coerência de escolhas diante de um mesmo menu de opções, de modo que trocar carne por frango só porque apareceu queijo é incoerente, e portanto irracional, mesmo sem nenhuma emoção envolvida no processo. Ser racional também não significa nunca errar, e sim não errar de forma sistemática, o que explica por que perder de propósito no xadrez para o próprio filho é perfeitamente racional, já que é coerente com o objetivo que se busca; definir irracionalidade pelo resultado, aliás, é sempre suspeito, porque seria muito racional fingir-se irracional quando isso serve ao próprio propósito. O que interessa de verdade ao estrategista não é decidir se o adversário é racional, mas achar o padrão por trás do comportamento dele, já que padrão garante previsibilidade, e previsibilidade garante explicação, algo que vale até contra si mesmo, como no ex-fumante de Thomas Schelling que joga fora o maço esquecido pelo amigo, tratando o próprio eu do futuro como se fosse outra pessoa.
Parte 2 · A lógica da cooperação
4O Dilema dos Prisioneiros
Quando o esquema de incentivos torna a traição vantajosa para cada jogador independentemente do que o outro faça, a decisão racional de cada um, tomada isoladamente, acaba levando os dois a um resultado pior do que a cooperação teria dado. Trair é a estratégia dominante, porque rende mais nas duas hipóteses possíveis, e a combinação trair-trair é o Equilíbrio de Nash, da qual ninguém consegue melhorar agindo sozinho, mesmo sendo um equilíbrio ineficiente, já que colaborar-colaborar seria melhor para os dois lados. Combinar antes não resolve nada, e é por isso que o Dilema dos Prisioneiros é, no fundo, um dilema de confiança: quem sabe que o outro vai cumprir a palavra tem justamente o maior incentivo para trair no último instante. A matriz de resultados é a ferramenta que revela o que o enunciado esconde à primeira vista, e a mesma estrutura reaparece, ponto por ponto, na guerra de preços entre dois postos de gasolina vizinhos.
5As duas soluções para a cooperação
A cooperação entre egoístas só se obtém de dois modos, e apenas dois: quando o jogo acontece numa jogada só, é preciso uma autoridade central que mude os incentivos por meio de sanção, e os próprios competidores costumam agradecer a lei que limita o canibalismo entre eles, como na guerra de letreiros que a Lei Cidade Limpa encerrou. Quando as interações se repetem sem um fim conhecido, funciona o Olho por Olho: cooperar na primeira jogada e, depois, repetir o que o outro fez na jogada anterior, estratégia que venceu os dois torneios de Robert Axelrod com apenas quatro linhas de código, batendo programas de setenta e sete linhas, graças a cinco atributos que explicam o resultado, nunca trair primeiro, retaliar logo na jogada seguinte, perdoar assim que o outro volta a cooperar, ser simples e ser transparente. Ela vence sem superar ninguém em nenhuma partida específica, porque soma mais no total ao induzir o outro a cooperar ao longo do tempo, e só funciona, aliás, se o fim for de fato incerto, já que, com número de rodadas conhecido, a traição contamina o jogo inteiro de trás para frente, até a primeira jogada.
6Outros dilemas da cooperação
Quando o mesmo esquema de incentivos passa a ser jogado por muitos, em vez de só dois, ele vira uma tragédia dos comuns: o benefício de romper a cooperação fica concentrado em quem rompe, enquanto o custo se dilui entre todos, de modo que cada um raciocina que só o seu gesto não faz diferença, e o recurso comum acaba se esgotando. É esse o mecanismo por trás das colherinhas que somem do escritório, da conta dividida por igual em que o camarão sai pelo preço da carne, da água do condomínio e dos países que se declararam caronistas nas negociações do clima; o Olho por Olho não serve aqui, porque só opera contra um jogador de cada vez, e sobram, então, a autoridade central e a medição individual, o hidrômetro por apartamento, a comanda por pessoa, formas práticas de accountability. Não há, no entanto, nenhum julgamento moral embutido nisso: o autointeresse é aceito como motivação de partida, e o método serve para reconhecer a armadilha e realinhar os incentivos, não para pregar altruísmo.
Parte 3 · Outras lógicas interessantes
7Ameaças críveis e navios queimados
Uma ameaça só funciona de verdade quando quem ameaça já destruiu a própria opção de recuar, porque, na hora decisiva, cumprir a ameaça costuma sair caro, e a tentação de não cumprir é sempre grande, o que faz da ameaça nua um simples blefe, que deveria ser ignorado. O que produz credibilidade, então, é ter menos alternativas, e não mais: reduzir de propósito a própria liberdade de ação futura, removendo de si mesmo a tentação de voltar atrás, exatamente como fez Hernán Cortés ao queimar os navios ao invadir o México, no século dezesseis, e ao fazer isso de um jeito que os astecas pudessem ver, já que o efeito desejado era sobre a crença do adversário, não sobre a própria frota. Esse mesmo mecanismo, aliás, costuma beneficiar o adversário mais vezes do que parece, porque, sem algo que torne a promessa crível, o negócio entre as duas partes simplesmente não acontece.
8O jogo do ultimato
Num jogo em que um lado propõe como dividir $100 e o outro só pode aceitar ou recusar, sem levar nada se recusar, a teoria prescreve oferecer o mínimo possível e aceitar qualquer coisa, já que um dólar é sempre melhor do que zero, mas não é isso que acontece na prática: dois terços das pessoas oferecem entre 40% e 50%, e mais da metade rejeita ofertas abaixo de 20%, abrindo mão de dinheiro de graça só para punir uma divisão que considera injusta. Ninguém avalia o próprio ganho isoladamente, todo mundo compara com o ganho do outro e com uma referência interna de justiça, e a percepção de merecimento muda tudo, já que, quando o proponente é escolhido por desempenho em vez de sorteio, as ofertas baixas ficam mais frequentes e também mais aceitas. A explicação evolucionária é que as emoções humanas se calibraram em grupos pequenos, onde quase nada era anônimo e quase nada acontecia uma única vez.
9O paradoxo do chantagista
Rubens e Simão estão diante de uma mala com $100 mil que só será liberada se houver acordo entre os dois, o que dá a cada um poder de veto e, por consequência, poder de chantagem: Simão exige $90 mil e não recua, e Rubens, sendo racional, acaba aceitando os $10 mil restantes, porque pouco ainda é melhor do que nada. O paradoxo está exatamente aí, é a própria racionalidade de Rubens que o obriga a ceder, forçando-o a agir de um jeito aparentemente irracional só para maximizar o que ainda é possível, e sua vulnerabilidade vem da premissa de que ele não pode sair de mãos vazias. A estratégia do chantagista, porém, não é robusta, já que bastaria o outro lado também recusar para que os dois ficassem sem nada.
10O leilão do dólar
O leilão do dólar tem uma regra a mais do que um leilão comum: o segundo maior lance também paga, mesmo sem levar nada, e é exatamente essa regra que transforma a disputa numa armadilha. A partir do momento em que os dois maiores lances somados já superam o valor do prêmio, cada novo lance deixa de ser tentativa de lucro e vira tentativa de reduzir prejuízo, com a lógica de subir mais uma vez sendo sempre a mesma que justificou o lance anterior, o que explica os leilões de notas de $20 que Max Bazerman e Margaret Neale fizeram com banqueiros, advogados e executivos, com lances finais entre $30 e $70, e um recorde de $407. Essa escalada não se sustenta em contas, e sim na recusa de admitir a própria falha e no desejo de parecer coerente com o que já se fez antes, resumida na frase "investi demais para desistir", de modo que a única jogada realmente vencedora é reconhecer o padrão antes de dar o primeiro lance.
11Competidores na mesma rua
Dois sorveteiros idênticos numa praia de cem metros, com banhistas distribuídos por igual ao longo dela, acabam colados bem no centro, e não por acaso: afastados, cada um divide a clientela ao meio pela simples distância, mas quem avança vinte metros em direção ao rival mantém todos os clientes do próprio lado e ainda captura os do meio, de modo que avançar sempre compensa. O outro entende a mesma lógica e avança de volta, e essa alternância só termina no ponto em que nenhum movimento é mais lucrativo, exatamente o centro da praia, com metade do público garantida para cada um, e é esse mesmo mecanismo que explica por que lojas de móveis se juntam num único quarteirão, e por que postos de gasolina quase sempre aparecem aos pares: a aglomeração de concorrentes não é erro de gestão nem coincidência, é o resultado estável do próprio jogo.
12O jogo da divisão do bolo
Dois filhos brigam sempre que é hora de repartir o bolo, e acusam o pai de injustiça, mas a solução não está em pregar justiça, e sim em desenhar uma regra em que o autointeresse de cada um os obrigue a ser justos: um corta, o outro escolhe. Quem corta já antecipa que qualquer desigualdade será punida, porque o outro vai ficar com o pedaço maior, e por isso tem todo o incentivo do mundo para cortar exatamente ao meio, enquanto quem escolhe perde o direito de reclamar depois, já que teve a chance de pegar a parte maior, se ela de fato existisse. O pai, nesse esquema, não arbitra resultado nenhum, apenas cria o esquema de incentivos, e é dali, e não de um julgamento externo, que nasce a divisão igualitária.
Parte 4 · Inquietações finais
13As dificuldades da Teoria dos Jogos
A Teoria dos Jogos quase não é aplicada dentro das empresas, mas a culpa não é da matemática nem de nenhum defeito da própria teoria: o gargalo real é o input, obter as reações prováveis do concorrente e os ganhos de cada combinação possível, dados que nenhum modelo econômico entrega pronto, o mesmo drama do VPL, cuja fórmula já está pronta no Excel enquanto as projeções continuam faltando, ou da curva de demanda, que ninguém descobre de fato mudando o preço toda semana. O contra-argumento de que não dá para prever a reação do concorrente acaba se destruindo sozinho, porque quem nada sabe sobre o adversário também não pode usar a sério ferramentas como SWOT ou Cinco Forças, e o que a teoria realmente entrega é insight cognitivo, a possibilidade de modelar a lógica da situação numa árvore ou numa matriz e encontrar o equilíbrio, sem exigir nenhuma sofisticação matemática. A pergunta certa, no fim das contas, não é se alguma empresa usa Teoria dos Jogos, e sim se ela precisaria ser usada por alguma empresa para já ser útil.
14As principais lógicas da Teoria dos Jogos
O que fica do livro, no fim, são dez lógicas encadeadas: reconhecer quando uma decisão é de fato estratégica; identificar jogadores, ações, sequência e objetivos envolvidos; pensar à frente e raciocinar para trás; conhecer os incentivos reais do outro lado; reconhecer a irracionalidade como parte legítima do jogo e buscar o padrão por trás dela; otimizar o próprio resultado, e não o do adversário; entender que alguns equilíbrios são simplesmente piores para todo mundo; induzir a cooperação por meio de um regulador ou pelo Olho por Olho; enxergar que dilemas sociais estão espalhados por toda parte; e diminuir as próprias opções de propósito para tornar uma ameaça crível. A distinção mais fina de todas está na quarta lógica: imaginar o que você faria se fosse ele é uma coisa bem diferente de imaginar o que você faria no lugar dele, porque o objetivo real é prever a reação do outro, não decidir se você jogaria melhor do que ele. Quem se coloca corretamente na posição do adversário, no fim, nunca é surpreendido.
Parte 5 · Apêndices para mentes curiosas
A1A cena do bar do filme Uma mente brilhante
Na cena do bar, Nash declara Adam Smith incompleto e propõe que nenhum dos amigos vá até a loira, para que não se bloqueiem uns aos outros, mas, tecnicamente, aquilo não é um Equilíbrio de Nash: se os três amigos forem às morenas, o quarto deixa de ter concorrência pela loira e passa a ter todo incentivo para ir até ela, o que torna o arranjo instável por definição, e, ao mandar todo mundo para as morenas, Nash parecia estar, na prática, reservando a loira só para si. O equilíbrio de fato praticável seria aquele em que um vai à loira enquanto os outros vão às morenas, de modo que a cena erra como aula de equilíbrio, mas continua sendo uma ótima anedota sobre a importância de pensar por antecipação.
A2Meus encontros com John Nash
Dois encontros com John Nash, um em 2008 e outro em 2010: no congresso Games 2008, na Kellogg School of Management, já aos 80 anos, Nash andava devagar, falava baixo, circulava sozinho pelo evento e era, curiosamente, o único famoso ali com quem todo mundo queria tirar foto, e não alguém de quem as pessoas apenas queriam uma foto à distância, tendo dado uma palestra de quarenta e cinco minutos com transparências e retroprojetor, pedindo desculpas pelo improviso da apresentação. Em 2010, no workshop da USP que comemorava os sessenta anos do Equilíbrio de Nash, a própria organização exibiu a cena do bar, avisou publicamente que aquilo não era de fato um Equilíbrio de Nash e perguntou a ele se tinha mesmo tido aquele insight ali, ao que Nash respondeu que achava que não, que era difícil lembrar com precisão, e comparou a pergunta a perguntar a Thomas Edison como tinha sido, exatamente, o insight da lâmpada, numa resposta que revela como teria sido bem mais fácil, e mais marqueteiro, simplesmente inventar o insight, mas ele preferiu a modéstia.
A3O que a Teoria dos Jogos está tentando conquistar
O objetivo de qualquer ciência não é aplicação prática nem poder de previsão, mas compreensão, e teorias não são verdadeiras ou falsas, são apenas úteis ou inúteis, o que explica por que se descartam quando deixam de funcionar, e por que duas teorias concorrentes podem conviver e ser usadas ao mesmo tempo sem contradição. Compreender, nesse sentido, tem três elementos centrais: relacionamento, que é encaixar conceitos e reconhecer padrões; unificação, que é cobrir uma área cada vez maior com a mesma ideia; e simplicidade, que é operar com poucos parâmetros e uso fácil. A Teoria dos Jogos descreve o Homo rationalis, uma espécie mítica que age sempre de forma proposital e calculada, e não o Homo sapiens real, guiado por cansaço, fome, emoção e estupidez cotidiana, o que não invalida a teoria, já que a medida do seu sucesso é se ela permite gerar insights, e não se ela acerta cada previsão. Tradução livre de Robert Aumann, Nobel de Economia de 2005.
A4Para atingir a paz não se pode fazer concessões
Concessão unilateral não traz paz nenhuma: o que de fato sustenta um equilíbrio é o incentivo com contrapartida, incluindo a ameaça crível de revide, e foi exatamente por isso que a Guerra Fria nunca esquentou de verdade, com aviões carregando armas nucleares no ar vinte e quatro horas por dia, durante mais de quarenta anos seguidos. A contribuição central de Robert Aumann, os jogos repetitivos, trata toda a repetição como se fosse um único jogo contínuo, de modo que o comportamento de hoje afeta diretamente a atuação do outro amanhã, e é por isso que fica mais fácil obter cooperação numa negociação que se estende por várias rodadas do que numa que acontece de uma vez só. Existem dois tipos de incentivo, a cenoura e o porrete, e a recomendação prática é simples: dizer, já na mesa de negociação, o que não vai ser aceito e qual será a resposta à insistência, já que concessões até podem ser necessárias, mas sempre com contrapartida, porque, sem isso, o adversário só fica mais intransigente e segue com os próprios planos se sentindo impune. Entrevista à Veja, em 2009.
A5O uso da Teoria dos Jogos
Em trinta anos de profissão, Ariel Rubinstein diz nunca ter encontrado um único caso em que a Teoria dos Jogos tenha de fato resolvido um problema real, nem nenhuma evidência concreta de que ela melhore o pensamento estratégico de quem a estuda, e argumenta que perguntar pelo "uso" dela pressupõe uma analogia falsa com o uso da Física no projeto de foguetes, já que mencionar o Dilema dos Prisioneiros num texto qualquer não transforma esse texto numa aplicação de verdade. A comparação mais honesta, para ele, é com a Lógica: uma estuda a verdade e a inferência, a outra estuda as considerações estratégicas, ambas por meio de modelos formais, ambas fornecendo ideias e ferramentas úteis a outras disciplinas, e, assim como a Lógica não induz ninguém a pensar de forma logicamente correta, a Teoria dos Jogos também não induz ninguém a pensar de forma mais estratégica. Ainda assim, ela se justifica, para Rubinstein, como parte legítima da investigação contínua sobre a própria mente.
A6A utilidade da Teoria dos Jogos
Rubinstein rejeita duas crenças bastante correntes: a de que o objetivo da teoria é prever o comportamento humano, numa ciência social em que a própria previsão já é parte do jogo, e a de que ela melhora o desempenho das pessoas em interações reais. Para ele a Economia funciona como cultura, e a Teoria dos Jogos virou uma caixa de ferramentas da qual os economistas tiram instrumentos, muitas vezes de forma mecânica, só para converter suposições em previsões, e é isso que abre o debate que se segue: Eran Shmaya argumenta que falta à teoria o poder tecnológico e normativo que a Física tem de verdade, e que colocar-se no lugar do outro já está em qualquer livro de autoajuda por aí, enquanto Eilon Solan responde que ela administra bem as situações mais simples, e que os insights que produz não são triviais para o leigo, precisamente porque ela não inventou nada, apenas explica fenômenos, e com elegância. O caso da gráfica do pai de Eilon é o argumento inteiro em miniatura: o cliente novo tinha pago só 80% adiantado, e foi justamente ao se colocar no lugar dele, que também não sabia se receberia o serviço no prazo combinado, que o dono decidiu imprimir mesmo assim, e acabou recebendo o restante depois.
Do livro para a prática.
Quem desceu até aqui percorreu o índice inteiro, capítulo por capítulo. Comprar um exemplar é um caminho, e o outro é levar o método para dentro da empresa, que é o que a ReasonHub faz em programas desenhados para a equipe.
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